Brincas comigo?

Brincar é uma necessidade básica, assim como a alimentação e o sono. Brincar ajuda a criança no seu desenvolvimento físico, afetivo, intelectual e social, pois, através das atividades lúdicas, a criança forma conceitos, relaciona ideias, estabelece relações lógicas, desenvolve a expressão oral e corporal, reforça competências sociais, treina o autocontrolo e reduz a agressividade … integra-se na sociedade e constrói o seu próprio conhecimento!

O ato de brincar não se limita a um simples passatempo, com funções exclusivas de entretenimento em atividades divertidas. Além de contribuir para um crescimento e um desenvolvimento saudável, o brincar cria canais únicos para o início do “relacionamento com o outro”, com um grupo de pares, aprendendo, experimentando e treinando as tão importantes capacidades de socialização. É uma maneira de vivenciar e experimentar as primeiras relações.


 O ato de brincar sozinho ou com outras crianças favorece e estimula a interiorização de princípios, de conceitos e de formas de ação tão importantes quando, a colaboração, a partilha, a liderança (“agora quem manda aqui sou eu”), a interiorização e o cumprimento de regras e a competitividade saudável.


A aprendizagem de competências motoras e da linguagem, também são desenvolvidas durante o brincar, como por exemplo, ao brincar “ao faz-de-conta”,  a criança começará a emitir sons e a verbalizar (seja com o brinquedo ou com o seu companheiro de brincadeira), estabelecendo assim diferentes formas de comunicação (verbais e não-verbais), além de exercitar e estimular a sua motricidade global, ao manusear o brinquedo, por exemplo. 


O Brincar é um canal privilegiado de relação e emoção! Somos super-heróis ou vilões, fadas com poderes mágicos ou bombeiros que salvam vidas, somos polícias ou ladrões, somos princesas ou fortes guerreiras! Somos animais, objetos ou quiçá, árvores especiais que passeiam por florestas desconhecidas! Navegamos por mares nunca antes navegados, com coragem, enfrentando medos e superando-os…Superando-nos! É nesta trilogia do “Ser, Estar e Fazer” que circulamos entre brincadeiras infinitas onde todos os papéis podemos desempenhar!

Com a aproximação do Dia Mundial da Criança, existe uma palavra que, invariavelmente, não deixa de estar presente no nosso pensamento: Brincar!

A verdade é que brincadeira é a “base de tudo”. Permite-nos ser genuínos e espontâneos. Deixa-nos sonhar até o que nunca antes foi sonhado e, por breves instantes, realizá-lo. É onde podemos rir ou chorar sem julgamentos. 

É uma aventura que se encontra assinalada na Declaração dos Direitos das Crianças desde 1959… por isso, além de um direito, deveria também fazer parte da “lista de deveres” diários das crianças, sem exceção!

Os tempos mudaram e as brincadeiras também. Foram substituídas, na sua grande maioria, por videojogos, o que, a juntar ao tempo que passam na escola e em atividades extra, pouco tempo sobra para explorar tempo livre e construir novas brincadeiras.

Por vezes, conseguir este Tempo parece quase impossível. Talvez a chave-mágica seja mudarmos também o nosso pensamento:

  • Ao invés de “fazermos tudo por eles” – “fazermos mais coisas com eles”! Sim, “muitas coisas… várias coisas… todas as coisas possíveis” com as nossas crianças – afinal, nem sempre quantidade é qualidade! Até os próprios trajetos de carro, casa-escola, podem transformar-se em momentos lúdicos.
  • As rotinas podem ser transformadas em momentos surpreendentes de recompensas e incentivos. Por exemplo, se a semana correu bem, dar à criança a oportunidade de escolher um local para fazer um “piquenique”. Está a chover? Porque não fazer um piquenique na sala! Afinal ter rotinas, não significa fazer sempre tudo da mesma maneira. Tem receio ou algumas reservas? Temos sempre… Mas arrisque, experimente! Afinal, ainda hoje não saberíamos andar, se não tivéssemos arriscado a primeira queda!

Reforçar momentos a dois, momentos a três, a quatro … funciona como um importante amortecedor emocional, ou seja, amortece as quedas e alivia as frustrações. Não as evita, mas esvazia a sua carga mais negativa! Assim conseguimos mudar o foco para outras tarefas ou momentos de prazer que reforçam a autoestima, o bem-estar, e acima de tudo, fortalecem os laços relacionais e familiares!

Assim partilhamos algumas Ideias e estratégias práticas:

– Aconselhamento parental 

Os pais devem respeitar ao máximo a brincadeira do filho e o seu ritmo. É preciso muita sensibilidade, habilidade e bom nível de observação para participar de forma positiva. A chave desta participação é a observação das brincadeiras das crianças, pois é necessário respeitá-las, conhecê-las, como e com quê é que brincam, e quando seria interessante o adulto participar, “entrar na brincadeira”. 

– Estimular a atenção e a concentração 

Com relação aos benefícios cognitivos da brincadeira, existem diversos autores que relacionam a capacidade de concentração, o desenvolvimento do raciocínio lógico e da comunicação na criança. Deste modo podemos propor “jogos de memória”, “jogos de adivinhas ou quem é quem”, em que a criança terá de estar com atenção para o lhe é dito e fazer as perguntas certas estimulando o pensamento lógico, dedução, reconhecimento do todo por uma parte, atenção e observação, ou por fim “uma caça ao tesouro” em que são dadas pistas espalhando-as numa área pré-definida da casa, sendo que cada pista traga uma informação que leve a outra pista em que a última levará ao tesouro (prémio a definir). Outro exemplo, por fim, é os “jogos da sequência” em que um participante faz um gesto. O seguinte repete e acrescenta um. O outro repete e põe mais um, e assim por diante.

– Regulação emocional e Relacionamento das díades pai-filho e mãe-filho.

Do ponto de vista dos benefícios emocionais, podemos constatar também que através do brincar, a criança pode exprimir a sua agressividade, aprender dominar as suas angústias e a ansiedade. A brincadeira também contribui de forma bastante efetiva para o relacionamento social das crianças, visto que oferece uma forma livre e autónoma de interação entre as mesmas e com os adultos. É importante por vezes a participação dos pais nestes momentos de descontração das suas crianças, fortalecendo os laços das díades (mãe-filho; pai-filho). Exemplos de atividades pode ser: “continue o desenho” – a criança começa por desenhar qualquer coisa à sua escolha e depois passa a um dos pais para este continuar o desenho ao que após desenhar mais alguma coisa, passa ao outro, resultando num desenho em conjunto, feito pelos três ou por só uma das díades, em que no fim pedir-se-ia à criança para contar uma história daquele desenho; ou o jogo do “sorteio do desenho”, em que se escrevem várias palavras em papéis e depois cada um terá que tirar dois papéis e fazer um desenho a partir dessas palavras que lhe calharam, sendo este semelhante ao jogo anterior. 

Da mesma forma, os pais podem e devem relembrar os limites apropriados através da brincadeira. Se sabemos que o tempo em que brincamos juntos será curto, para evitar a tristeza e frustração de pôr um fim à brincadeira, podemos ajudar a escolher atividades e jogos com duração e possibilidades de sucesso mais certas. Quando a escolha é mesmo brincar ao faz de conta, então podemos preparar e antecipar os momentos de transição para outras atividades: “…porque agora os bonecos foram mesmo todos dormir… Ou, os nossos super-heróis já estão mesmo cansados de tantas aventuras e precisam de parar para recarregar os seus poderes mágicos…” – e no dia seguinte, cumprimos a promessa de retomar no sítio onde ficamos! É importante assumir compromissos e cumpri-los, são oportunidades de aprendizagem a partir do modelo parental.

Será também essencial disponibilizar um feedback constante com o elogio genuíno e direto, assim como um contacto/toque físico (por exemplo, um toque na cabeça ou nas costas, um abraço), reforçando o comportamento e o momento positivo que estamos a partilhar com a criança. 

Por fim, mas não menos importante, lembramos os A’s do brincar – através da brincadeira, a criança pode exprimir e reduzir a sua Agressividade, dominar as suas Angústias e trabalhar a sua Ansiedade. Por outro lado, complementando estes grandes e poderosos A’s, através do brincar, irão ainda emergir outros três: 

a Autonomia, 

o Autoconhecimento 

e a Autoestima!

Porque hoje sou criança e o meu papel é brincar!

by Rita Antunes, Psicóloga

Comentários ( 1 )

  • Margarida Ferreira

    Excelente e motivacional, como sempre Rita!! Obrigada pela partilha!

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